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Feriado Municipal

 

Notas sobre o Feriado Municipal de Águeda

O Feriado Municipal foi comemorado em quatro dias diferentes:

  • 1 de Maio, dia do Trabalhador, em reunião da Comissão Municipal Administrativa, em 12 de Março de 1913, por proposta do Administrador do Concelho;
  • 8 de Setembro, data comemorativa da inauguração do caminho de ferro do Vale do Vouga, por proposta do Vogal João de Almeida Castella, em reunião camarária de 30 de Janeiro de 1918;
  • 27 de Janeiro, data do célebre Combate das Barreiras, em reunião da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de 19 de Abril de 1919, no mesmo ano em que se deu aquele facto histórico;
  • 15 de Agosto, data da inauguração do Hospital de Águeda, deliberação tomada em reunião camarária de 27 de Dezembro de 1928, que vigorou, apenas, durante uma semana, tendo sido alterada, em 3 de Janeiro de 1929, para a data actual.

 

Realiza-se na segunda-feira a seguir ao Domingo de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa.Está relacionado com a Festa de São Geraldo, realizada em Bolfiar, lugar da Freguesia de Águeda.

A população que acorria, em grande número, àquela Romaria, aproveitava essa festa para se reunir, em convívio, no Souto do Rio.

Deliberado em reunião da Comissão Administrativa de 3 de Janeiro de 1929 e, posteriormente, em reunião de Câmara de 17 de Março de 1971 (tendo em vista o disposto no artigo quarto, do Decreto-Lei 38.969, de 5 de Janeiro de 1952).

 

Referências Bibliográficas

“Águeda, Anos 20. Da Escola Primária Superior à Escola Comercial e Industrial”, de Deniz de Ramos, Edição da Câmara Municipal de Águeda, “Lugar da Memória”, Série Textos Históricos, 3, 1989, páginas 41 e 42 das quais se transcreve o texto abaixo, referente ao Feriado Municipal:

“Na reunião camarária de 27 de Dezembro de 1928, Joaquim de Melo proporia a alteração do feriado municipal de 27 de Janeiro para 15 de Agosto. Uma outra data foi novamente discutida, a de 8 de Setembro, dia da inauguração do caminho de ferro do Vale do Vouga, melhoramento para o qual muito contribuiu o Conde de Águeda. Acabaria por ser votada a que respeitava à abertura do Hospital, 15 de Agosto de 1922, e o Presidente da Comissão Administrativa justificá-la-ia pela importância que aqueles serviços hospitalares assumiram, não só para a população do concelho, como para toda uma vasta região. Mas esta data acabaria por ser alterada. Na sessão seguinte, a 3 de Janeiro de 1929, o vogal Carlos Costa e Melo, que participara na reunião de Dezembro na qualidade de suplente e, por isso, sem direito a voto, apresentou uma declaração de voto em seu nome e no de outros vogais, interpelando a decisão tomada. Assim, a Comissão Administrativa, considerando que o dia 15 de Agosto era realmente inadequado, por cair em período de férias, deliberou por maioria, com a abstenção do vogal proponente, fixar o feriado municipal “na segunda-feira do Espírito Santo, vulgarmente conhecida em Águeda pela segunda-feira de S. Geraldo ou do Souto Rio, dia este que é guardado por toda a gente deste concelho, por haver festa populares nesta freguesia”. O feriado municipal tem permanecido naquela data desde 1929.

O feriado municipal conhecera, porém, a partir do decreto de 12 de Outubro de 1910, diversas justificações e datas. A Câmara de 1910 optara pelo 1º de Maio, dia dos Trabalhadores. E compreende-se se tivermos em conta a participação republicana na formação ideológica da classe operária. A Câmara sidonista, de largo pendor monárquico, substituiria o 1º de Maio pelo 8 de Setembro, em recordação de um dos mais importantes melhoramentos na história de Águeda, o caminho de ferro do Vale do Vouga. Em 1919, após o combate das Barreiras, serão os republicanos a transferir o feriado para 27 de Janeiro. Também aqui funcionou o simbolismo da data: a vitória dos ideais da República perante a conspiração monárquica.

Seguir-se-iam, como vimos, as datas do 15 de Agosto e do Souto Rio.

Joaquim de Melo, questionado pelas frequentes alterações do feriado municipal, sustentaria que, de todos, o dia do Souto Rio era o que melhor correspondia às condições estabelecidas no artº 2º do decreto de 12 de Outubro de 1910. Aí se preconizava que deveriam ser fixados os feriados municipais em datas que correspondessem ao sentimento popular dos concelhos. Que recaíssem, por exemplo, em dias de festas tradicionais, particularmente celebradas pelo povo. A secular romaria de S. Geraldo e do Souto Rio enquadrava-se, assim, nesses parâmetros.”

A complementar a informação acerca desta romaria, transcreve-se um trecho do livro “Águeda – Crónicas, Paisagens e Tradições”, de Adolfo Portela, 2ª Edição, 1964 (a 1ª Edição data de 1904):

“Por volta do mês de Junho, ao pintar das primeiras cerejas, o S. Geraldo acena de Bolfiar, com as suas bandeiras.

Grande romaria vai ser! O sítio é lindo. O Agadão e o Alfusqueiro, vindos lá da serra, ali se beijam ao seu encontro; e, logo ao cantar desse beijo, as faldas da serra amaciam, os arvoredos copam-se de verde, perfilam-se as primeiras caneiras de milho. Aí começa o Vale de Águeda a espraiar-se…

Os romeiros são às centenas, em romagem de muitas léguas de ao redor. Não que os milagres do Santo correm por todo o Distrito com tal fama, que o próprio S. Geraldo de Azurva, apesar de todos os pregões que espalharam ao redor do seu poder milagreiro, não teve alma até hoje de fazer sombra ao modesto santinho de Bolfiar.

Depois, para cativar as graças e a protecção do S. Geraldo da nossa terra, bem pouco é preciso: - Um tamanco de milho, uma telha furtada (ofertada), uma cestinha de ovos, e logo o S. Geraldo de Bolfiar, no parecer crédulo dos devotos, despeja, por cima das suas cabeças, todas as divinas graças de que ele é depositário fiel.

Em outros tempos, aí por 1650, as ofertas e os votos ao S. Geraldo fiavam mais fino, segundo diz a crónica. Houve quem visse lá “dezasseis ou dezassete Mortalhas penduradas nas Traves da dicta Hermida, e nas Paredes junto à porta muitos Braços, muitas mãos, muitos Pés, Pernas e muletas, e no Altar-Mór Peitos e olhos de prata”.

Já se vê: o valor da esmola é maior ou menor, conforme a gravidade da moléstia, para cuja se invocam os milagres do Santo. Assim, no tempo em que os devotos lhe ofertavam Peitos e olhos de prata, o seu poder milagreiro “foy até livrar huma mulher de hum Chanchor que tinha no Peito.” Agora, a invocação do S. Geraldinho de Vulfiar é feita, quase exclusivamente, para a cura dos cravos; e, como isto seja um mal de pouca monta, o valor das ofertas desceu até à mesquinhez da telha furtada e do tamanco de milho…

O arraial de S. Geraldo faz-se todo no Souto do Rio, que fica a meia légua de caminho, entre Águeda e Bolfiar. Agasalhados pela fronda dos velhos carvalhos, com o rio a beijar-lhe as alfombras verdes dos cambalhões, o Souto do Rio é com certeza um dos mais originais trechos de paisagem de toda a Riba Águeda.

Quer na ida, quer na volta da romaria, ali aquedam os romeiros, dançando e merendando. As botequineiras e os vendeiros de Águeda armam tenda, a chamar a freguesia. Ao redor das violas de melhor nomeada, a gente moça dá-se as mãos, e toca a dançar por essa tarde fora!

Mas a nota mais pitoresca de toda esta romaria é a linda jornada que se faz desde a vila até ao Souto, de barco – os mastros embandeirados, as proas enramilhetadas de ramalheiras verdes, os barqueiros cantando… À volta do arraial, então, com os barcos e as bateiras por esse rio abaixo – todos ao despique, para mostrarem qual traz consigo mais alegria e melhor descante – a romaria do Souto assume todo o aspecto duma festa pagã, orvalhada de notas românticas, como se no peito de cada romeiro palpitasse um coração de poeta… Quando o cair da tarde calha a ser tranquilo, sem bulir de folha nem franzir de água, o cortejo dos romeiros pelo rio abaixo nem sei que românticos episódios evoca, com todo aquele seu ar de barcarola antiga, sobre cujas alegrias em descante a noite vai estendendo as asas de seda…”