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O legado de Amadeu Castilho Soares para Educação e a Língua Portuguesa em Angola

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12 Novembro 2012

Há 50 anos o Aguedense Amadeu Castilho Soares foi secretário-provincial para a educação (...)

Há 50 anos o Aguedense Amadeu Castilho Soares foi secretário-provincial para a educação do Governo Geral de Angola, responsável pela elaboração e implementação do plano de ensino primário rural «Levar a Escola à Sanzala», 1961-1962, no âmbito do programa de política social, em cuja ação destacou-se a formulação e execução do método de alfabetização e de ensino da Língua Portuguesa, enquanto instrumento unificador dos diferentes povos angolanos.


Em 7 de outubro de 1961 apresentou o General Deslandes ao Conselho Legislativo de Angola o seu plano de governo para 1962.


Dizia-se nesse Plano que, nos meios rurais, a escola seria levada à sanzala (povoações nativas rurais ou suburbanas), fazendo dela não exclusivamente um instrumento de simples aliteração das crianças, mas, ainda e principalmente, transformando-a num verdadeiro centro social integrado na vida da comunidade local. E acrescentava-se: "procurar-se-á vincular à escola e interessar nas actividades que dela hão-de irradiar os elementos de prestígio e de influência do meio".


Coube ao Dr. Amadeu Castilho Soares, responsável pela pasta da Educação, levar assim à prática o que preconizara no seu livro Política de Bem Estar Rural em Angola, editado pela Junta de Investigação do Ultramar em 1961.


Dr. Amadeu Castilho Soares

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, empenhou-se entusiasticamente nesta tarefa verdadeiramente revolucionária em África que se traduziu na formação acelerada de centenas de monitores rurais de ensino e na criação de livros escolares adaptados à população africana, profusamente ilustrados com motivos da ambiência natural dos alunos. "Monitores" eram agentes nativos, com uma preparação que correspondia à 3.a ou 4.a Classes.


Até então, nas zonas urbanas e nos meios rurais, onde viviam populações com línguas e culturas diferentes da portuguesa, o ensino era ministrado pelas missões religiosas, tendo o "ensino dos indígenas" sido atribuído às missões católicas por força do acordo missionário com a Santa Sé de 1941. Esta acção, muito meritória, estava no entanto condicionada pela carência de meios humanos, materiais e financeiros.


Nos dois primeiros anos foram preparados e fixados em "aldeias do mato", dispersas pela imensidão do Território, mais de quinhentos monitores (frequentemente casais preparados em cursos intensivos de três meses em regime de internato. No primeiro curso aprendiam a ensinar a 1.ª classe e, nos seguintes, depois de uma revisão da experiência anterior, a 2.ª classe.


Paralelamente criaram-se cursos de regentes escolares e professores primários, devendo aqueles ter o primeiro ciclo do nível secundário. A sua formação era feita em cursos de dois anos, tendo como objectivo prosseguir o ensino até à 4.a classe. O curso far-se-ia em missões católicas dispersas pelo Território. E, para a formação de professores primários, foram criadas as primeiras escolas de magistério primário.


O êxito alcançado veio a ser reconhecido pelo Ministério do Ultramar que, em 1964, pelo Dec. n.° 45908, aprovaria a Reforma do Ensino Primário Elementar nas Províncias Ultramarinas, o qual tomou por base o sistema adoptado em Angola, embora pondo o acento tónico nos regentes escolares.


Ainda no Governo do General Deslandes foram criados liceus em Luanda (o primeiro surgira em 1930), Lobito, Moçâmedes e Malanje, cidades que dispunham já de escolas técnicas. E novas escolas técnicas, também de nível secundário, surgiram em Cabinda, Uíge, Luso, Gabela e Luanda (duas). Foram igualmente criadas a Escola de Enfermagem de Luanda e o Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII, para formação de técnicos de serviço social. E, para além da criação dos cursos superiores de engenharia, agronomia e medicina, iniciou-se a formação de professores de nível secundário.


A revolução operada no ensino primário teve repercussão internacional, sublinhando o prestigiado The Economist que, de 1961 a 1963, o número de africanos beneficiando de escolarização duplicara; e comentando que "não podendo os alunos ir à escola, a escola vai agora até eles". Do mesmo modo, o Centro de Estudos Estratégicos da Universidade de Georgetwon, de Washington, assinalava quer a africanização dos livros escolares quer o desejo, neles patente, de inculcar o espírito do multi-racialismo.


Este trabalho não terminou com o fim antecipado do Governo Deslandes em setembro de 1962 e a consequente exoneração do Dr. Castilho Soares, o jovem titular da pasta da Educação (tinha então 31 anos). De facto, a equipa técnica que lançara o novo sistema de ensino - Inspectores Almeida Abrantes, Brito de Figueiredo e António Henriques Carneiro - deu-lhe plena continuidade e o novo titular da pasta da Educação, Dr. José Pinheiro da Silva, empossado em 26 de março de1964, abraçou-o inteiramente. Assim, a escola rural, para além da massificação do ensino, veio a desempenhar também um papel primordial no reordenamento das populações, contribuindo para a instalação de núcleos potenciadores do desenvolvimento agrícola e pecuário.


O sucesso do plano levou, em poucos anos, à sua implementação a outros territórios africanos sob administração portuguesa, nos quais a generalização da Língua Portuguesa permitiu que a mesma fosse proclamada como Língua Nacional desses países, aquando da sua independência, e à instituição da Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).


Fonte: http://petrinus.com.sapo.pt/ensino.htm


Siga a ligação abaixo para ler o artigo "LEVAR A ESCOLA À SANZALA: PLANO DE ENSINO PRIMÁRIO RURAL EM ANGOLA - 1961/62" da autoria do Dr. Amadeu Castilho Soares, editado em 2002 pela revista Episteme da Universidade Técnica de Lisboa:

http://www.adelinotorres.com/africa/Amadeu%20Castinho%20Soares_Levar%20a%20Escola%20%C3%A0%20Sanzala.pdf