OS SERRANOS NA CASA DA CULTURA DE FAMALICÃO
A Associação Etnográfica Os Serranos viajou o seu Grupo de Cultura Nativa até à Guarda, no passado 6 de Fevereiro. Subiu ao palco da Casa da Cultura de Famalicão, onde reside um projecto cultural casado com um espaço técnico com condições excepcionais para as artes e para o espectáculo. No primeiro ano de vida deste projecto de descentralização cultural, Os Serranos tiveram o privilégio de usufruir deste espaço, por onde passará também a criação Toques do Caramulo, lá para os finais de Março.
As condições técnicas desta Casa da Cultura são verdadeiramente admiráveis, seja no domínio das artes, seja no conforto e nas condições de trabalho. Apesar do primeiro ano de vida deste projecto invulgar de aposta na descentralização cultural, é perceptível que o público já sabe o que quer e para o que vai. Por este palco têm passado companhias profissionais de teatro vindas da capital ou de outras bolsas locais, como o Trigo Limpo ACERT, grupos de fadistas, Fábrica das Artes (CCB) e projectos da nova música popular, tal como A Presença das Formigas e os Toques do Caramulo, que subirão ao palco no encerramento do ciclo de Inverno. Foi esta programação que integrou o trabalho de palco da Associação Etnográfica Os Serranos.
Com a responsabilidade de corresponder ao nível desta programação e de posicionar a cultura nativa do Caramulo ocidental sem recorrer ao lugar-comum da sequência das danças e ou da apresentação dos trajos, Os Serranos apresentaram um espectáculo em duas partes, desenvolvendo temas distintos em cada uma delas e proporcionando ao público o envolvimento em ambientes igualmente diversos. Na primeira parte, todos entraram para o ambiente apaixonado e auto-suficiente da aldeia serrana, usando a água como fio condutor da narrativa, nas múltiplas utilidades e aplicações, incluindo a sua falta e as consequências de ser trocada pelo vinho. Na segunda parte, todos “saíram” para a serra ao encontro do ambiente pastoril isolado, místico e cantador. A Lenda da Santa Combinha foi contada conforme chegou até nós na tradição oral que cruzou gerações de serranos, com o seu lado fantástico, a crença e a devoção, caldeando cantigas, pregões, promessas sacrificadas e a diversão do ajuntamento.
No final, alguns elementos do público fizeram questão de saudar a prestação serrana, em particular a espontaneidade natural das danças, os cantares vivos e o ritmo da narrativa feita com a própria encenação. “Não poderemos pensar em acções de formação, para os Grupos de Folclore desta região?” Perguntou Victor Amaral, o director artístico do projecto Casa da Cultura.